Natália Fachini Meschiatti

 

Numa trajetória profissional labiríntica, a vida a levou à obstetrícia a partir do ensino técnico em enfermagem. Em 2007, com 22 anos, trabalhava num modelo de centro obstétrico onde quem assistia aos partos eram enfermeiras obstétricas. Apaixonada pela assistência ao parto, no ano seguinte ingressou na graduação em Enfermagem, na Faculdade de Medicina de Jundiaí, certa de que era esse o caminho a seguir. No entanto, somente no terceiro ano da graduação entendi que a assistência que era prestada às mulheres naquela instituição estava longe de ser a ideal. Presenciou diversas formas de violência obstétrica e pouca autonomia das enfermeiras na assistência ao parto. E então, conheceu o que era o respiro e a esperança de uma assistência digna e respeitosa: o movimento de humanização do parto. Havia uma forma melhor de nascer.

Assim, uma enfermeira recém-formada em 2011, se viu querendo mudar a realidade obstétrica na cidade. Conheceu mulheres e doulas que já introduziam o movimento, e querendo revolucionar, tentou plantar sementes na assistência às mulheres no hospital universitário onde então trabalhava como enfermeira do Alojamento Conjunto. Mas logo entendeu que teria que ter muita paciência para começar a colher os frutos.

Em 2013, passou no curso de Residência Multiprofissional em Saúde da Mulher da UNIFESP, e mesmo sabendo que não estaria se preparando para atuar diretamente na assistência ao parto, vislumbrou uma oportunidade de avançar neste labirinto. Mudou de cidade, fechou ciclos, teve muita saudade, pensou em desistir. Tinha 27 anos, era o retorno de saturno. Então, como uma boa virginiana, com muito esforço e planejamento viu que era possível ao mesmo tempo cursar a pós-graduação em obstetrícia. Passou o ano de 2014 cursando duas pós-graduações e escrevendo dois TCC. Nem precisa mencionar que para ela isso foi um ato heróico e certamente muito ambicioso. Precisava aproveitar a sua permanência temporária em São Paulo. 

Concluídos os cursos, o que já não foi difícil o bastante, enfrentar o mercado de trabalho como recém-formada foi ainda mais desafiador. Parecia não ser suficiente sua experiência até então. Fez toda sua mudança de volta para minha cidade natal. Depois de um mês, voltou para São Paulo para trabalhar num hospital da rede privada. Organizou novamente toda a minha mudança, e dessa vez iria morar sozinha.

Mais um grande desafio teve que enfrentar, quando percebeu que não era nada do que ela imaginava. O índice de cesariana daquele hospital era (é) mais de 90% e para ela seria muito difícil trabalhar nesse modelo. Não pensou duas vezes e 45 dias depois estava saindo daquela instituição quando foi chamada para compor a equipe de um hospital municipal (uma organização social de um grande hospital de São Paulo) que seria inaugurado, onde finalmente teria autonomia, pois de fato incluía as enfermeiras obstetras na assistência ao parto. Neste projeto, conheceu Aline Calixto, médica obstetra que compõe a equipe da Lumos. Mineira e recém mudada à São Paulo, tinha uma grande trajetória no currículo (Hospital Sofia Feldman e Médico Sem-Fronteiras) também queria entender como funcionava a assistência obstétrica humanizada na cidade. Não pensou duas vezes e logo já estava convidando ela pra atuar de fato em prol das mulheres, com autonomia para além dos plantões do Vila. 

Sempre querendo abrir caminhos nesse labirinto, foi chamada num cargo estatutário para trabalhar com Assistência Pré-Hospitalar (APH). Em um ano se manteve nas duas funções. Precisava pagar as contas e se estabelecer de fato em São Paulo. 

Assim, no ano de 2017, resolveu que se dedicaria totalmente à função de enfermeira obstétrica e finalmente encontrar essa parteira que gostaria de se tornar. Fez outra pós-graduação (Antroposofia em Saúde -UNIFESP) e diversos cursos e dentre eles, o curso de imersão da Casa Angela, aquele lugar encantador que por muitas vezes havia enviado o seu currículo. No final do ano de 2017 foi quando finalmente foi chamada para compor a equipe de parteiras. O sonho que nutria desde a graduação tornou-se realidade, num modelo de assistência ao parto que sempre acreditou. Deixou o hospital logo depois que entrou na Casa, pois passou a fazer outro sentido, apesar de ser imensamente grata a todo aprendizado pelos dois anos e meio que lá permaneceu.

Em 2018, além da Casa Angela, passou a atuar num modelo de parteria autônoma, com assistência hospitalar particular (com Aline Calixto) e domiciliar. Foi dessa forma que chegou a Lumos, um lugar que já admirava há algum tempo, onde as famílias são acolhidas nas suas diversas necessidades e onde podia oferecer o melhor da assistência obstétrica humanizada. Chegou no final do labirinto profissional, mas casada há 2 anos, em breve quero descobrir outro, certamente ainda mais desafiador: o da maternidade!